Ishtar é uma das deusas do Amor mais antigas da humanidade, tendo sido cultuada pelos antigos Acádios e Babilônicos. Antes disso, já era adorada pelos Sumérios com o nome de Inanna, por volta de 3.000a.C. Os gregos a conheciam como Astarte. Estava associada ao planeta Vênus, a Estrela Vespertina, e é curioso que as palavras “astro” e “estrela” parece descender de seu nome na maioria das línguas européias (star, stern…).
Isso muita gente já sabe. Mas em que isso se relaciona com o Sefirat ha Omer? Antes de chegar aonde quero, irei contar de forma resumida aquele que talvez seja o mito mais conhecido de Ishtar: a sua descida ao mundo subterrâneo.
Ishtar era amante de Tamuz (ou Dumuzi entre os Sumérios), um pastor mortal. Quando ele morreu, o sofrimento dela foi tão grande que ela desceu ao Mundo Subterrâneo para buscar sua alma. Para isso, ela precisou atravessar os sete portões da região dos mortos. A cada portão, os guardiões exigiram que ela entregasse algo. Ela entregou um por um dos seus véus, e assim chegou completamente nua diante de Ereshkigal, a Rainha do Mundo Subterrâneo. Ereshkigal, porém, não se compadeceu e pendurou Ishtar em um gancho como se estivesse morta e a deixou presa no inferno. Os demais deuses não suportaram viver em um mundo sem amor e assim mandaram um mensageiro ao inferno para que Ishtar fosse libertada, e assim ela ascendeu aos céus em toda sua glória.
O mito da descida de Ishtar tem base na astronomia. Está relacionado ao desaparecimento de Vênus como Estrela da Manhã e seu reaparecimento como Estrela da Noite. Mas os autores Ariel Guttman & Kenneth Johnson propõe um significado psicológico muito profundo a esse mito, que está diretamente relacionado com a forma como eu vivenciei o Sefirat nos dois últimos anos.
Em seu livro Astrologia e Mitologia – Seus arquétipos e a linguagem dos símbolos (Madras), os autores chamam de plutoniana o tipo de experiência que
…“manda-nos numa descida em espiral para as profundezas do inconsciente, onde precisamos encarar nossos demônios pessoais. Conforme descemos, parecemos perder cada vez mais as coisas que nos fazem sentir salvos e seguros. Como Ishtar, somos despidos de nossos trajes de glória. Esses trajes de glória podem ser posses materiais, mas com maior freqüência são atitudes ou opiniões cuidadosamente guardadas sobre a vida. Tudo o que tínhamos por certo parece insignificante. (…) Por fim, encaramos a imensa escuridão. Ereshkigal, a rainha dos mortos, com sanguessugas no cabelo, é o rosto que vemos no espelho”.
Da mesma forma, a cada uma das sete semanas do Sefirat, somos obrigados a retirar um de nossos véus e enfrentar tudo aquilo que não queremos ver. Psicologicamente, o Inferno é nosso inconsciente mais profundo, onde escondemos todos nossos demônios, nossos piores aspectos. Ishtar apenas conseguiu sobreviver à experiência por intermédio dos deuses. Ao mesmo tempo em que isso mostra o quão difícil a é descida, é uma lembrança de que não estamos sozinhos mesmo quando tudo parece perdido e estamos presos num gancho no fundo do inferno.
Depois de voltar do mundo dos mortos, Tamuz tornou-se o deus da vegetação, em seu nascer-morrer. Esse é um mito cíclico. Tal como o Sefirat, repete-se ano após ano. A cada vez, descemos ao Inferno e sentimos o bafo de Ereshkigal em nossas caras. E mesmo se tivermos perdido as esperanças, um mensageiro dos deuses vem e nos liberta.
E então renascemos.
Fontes:

Fantástico post. Confesso que minha experiência com o Sefirath (minha primeira) tem sido exatamente essa. Ereshkigal não só “bafeou” como me encara no fundo dos olhos como que dizendo “dessa você não sai fácil”.
Mas sei que um mensageiro já está a caminho. Na verdade ele já está aqui. Mas o gancho não é um simples gancho. Mas ele está conseguindo.
Parabéns e obrigado. Repostarei no meu blog.
[...] Bom, é isso. O post é esse aqui: http://naoestasendofacil.wordpress.com/2011/06/04/a-experiencia-plutoniana-do-sefirat-haomer/ [...]
Muito interessante a história e vem mesmo casar com o sentimento que o omer tras: transformação estrutural.
Parabéns pelo texto.
Abraços.
Isto coincide exatamente com a minha experiência deste ano no ômer, que inclusive me levou a me conectar com o eu-plutoniano de maneira inédita, descobri muitos tesouros ocultos no subterrâneo, junto com os demônios que os guardavam…parabéns pelo post. Namastê.
@victorgodoi É legal lembrar que Hades era conhecido entre os romanos por Pluto (o Rico), pois é no subsolo, assim como no subconsciente, que estão grande parte das riquezas, e dos perigos. Namastê.
[...] – Origens do Martinismo – O Alvorecer – A Greve dos Signos – Artigo 19 – Binah – Não está sendo fácil – A Experiência Plutoniana do Sefirat ha Omer – Universo Paralelo – Escolha, Caminho, Destino – Zzurto – O Véu de [...]